flor da cana do brejo

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rua João Borges
Foto: Lúcia Gomes
Rua silenciosa
Rua estranha
À noite a percorro sem medo
Não tenho medo de mais nada.

Escuto os vizinhos, cuja voz ferina
Lançam calúnias, como fagulhas.
O outro é um ser estranho
Que coloca lixo nas calçadas

Madrugadas silenciosas

Minha vida caberia num bule de café
Minha vida caberia na pequena xícara
Em que meu filho Pedro
Aquecia o peito nas manhãs de frio

"Ninguém faz café como minha mãe"

Pelas calçadas os ratos caçam as sobras
Da falta de educação acumulada nos restos
Nos dejetos, no cheiro de urina dos cães e seus donos
Na cidade que apodrece.

Como admiro o varredor de rua
Ao dar-me bom dia todas as manhãs
A mesma vassoura e pás silenciosas
Ele junta as folhas da minha alma.
Não sei se um dia vou florir novamente

Não quero saber
Desejo esticar o meu corpo cansado
Como o cachorro a espreguiçar-se ao sol
E adormecer aquecida

Talvez não queira acordar
Talvez queira ser esquecida
E assim como passam as estações
A vida brotará das minhas mãos


Folhas de quaresmeira no chão do quintal
Foto: Lúcia Gomes

sábado, 28 de janeiro de 2012

bromélia da árvore do quintal - bebedouro de pássaros
O sabiá que nasceu no quintal e resolveu voar pela casa
Lúcia, Pedro, a cachorrinha do Pedro e os filhotes


As estrelas nascem e morrem
Dizem os cientistas
Transformam-se em poeira
Jogadas no infinito

Quando ando pela rua
Olho para o céu estrelado
Penso nas estrelas mortas
E em suas mães desesperadas

Sei que ninguém se dá conta
Do céu ou das estrelas
Olham para os postes da rua
E os mosquitos da dengue

Os mosquitos são das libélulas
Que deles se alimentam
Assim eles se libertam
Da sua inferior existência

A noite acende a luz das casas
Onde os homens assistem sentados
A vida reinventada
Por outros homens letrados

Eu mastigo a morte com os dentes
Aperto as mãos com furor
Parto o lápis, risco os versos
Solto gritos, rasgo o verbo

Lúcia quer dizer luz
E minha luz é meu Pedro
Cremado virou pó
É poeira das estrelas

O colo mais gostoso do mundo
Lúcia, Pedro e a cachorrinha do Pedro
E o amor se fez verbo
E o verbo se fez carne
Eu, tu, ela, ele
Não conjugamos mais nada

Constituímos um retalho

Que ponto mal feito,
Diria minha avó
Nunca conseguiu-me
Ensinar-me croché

Não levo jeito para tecer

Já escrever...
Há quem diga que levo
Não é verdade
O Poema me leva

Escrevo porque a vida não basta

Disse uma vez a um amigo
Hoje como a vida me bastaria
Juntos, nós dois,
Eu e o meu menino

Uma manta somente abrigando a família

E minhas mãos que não souberam
Empunhar uma agulha
Sabem riscar com presteza
Uma palavra fagulha
Pedro, meu filho, meu amor

Eu já não consigo conter
O que de mim transborda
Inunda a casa de água
Escorre pela porta

Ser silêncio o tempo todo
Remoer minhas entranhas
Guardar no peito a ausência
Dos vazios que encontro

Se as roupas no armário
São teu cheiro, tua lembrança
Vazio o armário é
Tua presença gritando

Minha boca já não segura
A lentidão destes passos
Se grito pra dentro, ecoa
Nas cavernas dos meus ossos

Um vozerio estrondoso
Se esbarra no meu peito
Tapo os ouvidos e escuto
O silêncio faz barulho
Foto tirada por Pedro Gomes na Argentina



        
Quando o sol se esconde
atrás da montanha
eu vejo que minha dor
é maior que a Cordilheira dos Andes

nada será como antes

levanto no meio da noite
corro para o teu quarto
e te procuro na cama
no meio da madrugada

abraço o teu travesseiro
sinto teu cheiro menino
e meu coração se encolhe
cada vez mais pequenino

hoje faço as contas
se subtrair os dias
para aguardar o momento
de estar de novo contigo