flor da cana do brejo

sábado, 28 de janeiro de 2012


O colo mais gostoso do mundo
Lúcia, Pedro e a cachorrinha do Pedro
E o amor se fez verbo
E o verbo se fez carne
Eu, tu, ela, ele
Não conjugamos mais nada

Constituímos um retalho

Que ponto mal feito,
Diria minha avó
Nunca conseguiu-me
Ensinar-me croché

Não levo jeito para tecer

Já escrever...
Há quem diga que levo
Não é verdade
O Poema me leva

Escrevo porque a vida não basta

Disse uma vez a um amigo
Hoje como a vida me bastaria
Juntos, nós dois,
Eu e o meu menino

Uma manta somente abrigando a família

E minhas mãos que não souberam
Empunhar uma agulha
Sabem riscar com presteza
Uma palavra fagulha
Pedro, meu filho, meu amor

Eu já não consigo conter
O que de mim transborda
Inunda a casa de água
Escorre pela porta

Ser silêncio o tempo todo
Remoer minhas entranhas
Guardar no peito a ausência
Dos vazios que encontro

Se as roupas no armário
São teu cheiro, tua lembrança
Vazio o armário é
Tua presença gritando

Minha boca já não segura
A lentidão destes passos
Se grito pra dentro, ecoa
Nas cavernas dos meus ossos

Um vozerio estrondoso
Se esbarra no meu peito
Tapo os ouvidos e escuto
O silêncio faz barulho
Foto tirada por Pedro Gomes na Argentina



        
Quando o sol se esconde
atrás da montanha
eu vejo que minha dor
é maior que a Cordilheira dos Andes

nada será como antes

levanto no meio da noite
corro para o teu quarto
e te procuro na cama
no meio da madrugada

abraço o teu travesseiro
sinto teu cheiro menino
e meu coração se encolhe
cada vez mais pequenino

hoje faço as contas
se subtrair os dias
para aguardar o momento
de estar de novo contigo 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011


Foto: Vitória Mitsuyo Wada


Estranho,depois do temporal,a corrida desenfreada pela rua,
o guarda-chuva empinado pelo vento, eu encharcada por dentro.
Agora, essa brisa noturna com cheiro de mato e terra úmida,
flores por abrir no amanhecer, mudanças por saber.
Depois não sei o que farei diante da vida a multiplicar-se em
folhas, minhocas, caprichos e os pés com bolhas do sapato novo.
Tudo isso por você.
Meu amor só existe porque vivo assim: a procurar-te
em cada gesto meu, no pentear os cabelos, escolher o vestido,
perfumar-me e rir para o espelho,onde os teus olhos espiam os meus.



 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Flores do quintal de casa
Foto: Cyda Olimpio
Minha mão dói ao digitar versos
de alegrias sonhadas em manhãs
ao despertar com sorrisos
e mãos pequenas a chamar-me.

Mãos acariciando filhos,
preparando o leite, arrumando mochilas,
vestindo os uniformes,
penteando cabelos finos.

Dói escrever versos dormentes
com os dedos insensiveis
a minha sensibilidade
ao lembrar-me do antes:

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pensei que ia chover
Vento encanado batendo nas roupas,
frio da noite virando madrugada,
barulhos de latidos, televisões altas.

Pensei.

Agora, roupas dobradas e guardadas,
folhas a dobrar-se lentas,
as cobertas aquecendo o leito,
cachorros dormindo, luz em silencio

Agora.

Poucas coisas me restam:
o livro sendo lido a emendar-se em outro,
a ausencia das horas e relogios
a obrigação de esperar o amanhecer.

Poucas coisas.



Meu cachorrinho 

Minha cachorrinha









Hoje é finados
Findados os tempos
Pedro e a sua cachorrinha
Os dias pararam
No meu desalento

Não viro as páginas
Do meu calendário
Acabaram-se as datas
Do tempo diário 

Parada no quarto 
Olhando para o teto
Vejo a aranha
Comendo um inseto

Viro para o lado
Uma traça traduz
O casulo que guarda
O que em mim ainda é Luz

Recosto a cabeça
A cachorra esprequiça
Minhas lágrimas descem
Seu pêlo umidecem

Meus olhos são duas tinas
Saciariam a sede de um deserto